13.5.12

Três minutos e trinta e sete segundos

Ele a trouxe para perto do seu corpo como quem alimenta pássaros num fim de tarde.  A música era lenta o suficiente para caber numa carta de amor, e para o sorriso tímido da moça, ele havia aprendido a escrever poesia sem palavras, a ponto de com seus pés e mãos compor  uma declaração de pertencimento eterno. Ele era dela durante três minutos e trinte e sete segundos. E a dança se iniciava. 

Ele demorava para conduzi-la ao primeiro giro de medo que tinha de que ela pudesse nunca mais voltar. Então, próximos um do outro, eles permaneciam por mais tempo que a canção permitia. Dançavam uma melancolia com coragem de sorrir. Sorriam um para o outro sem que um e outro pudessem se ver. Eles sabiam que sorriam do outro lado, em todos os lados do salão.

Quase não querendo soltá-la, ele às vezes permitia que ela rodasse sua saia e tornasse a vida um arco de delicadeza. Ela girava tão lentamente que por um segundo ele imaginava estar andando de bicicleta com ela, de mãos dadas, num parque pela manhã. 

Quando ela voltava para os seus braços, ah, ele percebia o quanto era bom deixá-la girar para que na volta, com o olhar e as mãos a procura dos seus traços, ela fosse mais dele ainda. Eles tornavam então a passear pelo salão em suas bicicletas inventadas. Os dois no mesmo ritmo, no mesmo caminho sem volta, na mesma música, na mesma declaração de amor.

E quando a música estava para acabar, ele criava um plano mirabolante: recitava os últimos versos da canção no ouvido dela para que a melodia desistisse de terminar.

Eu vento, tu nuvens

Eu preciso entender o que venta.
O que faz um papel ter momentos de pássaro.

Qual é o sopro que assopra outro sopro que beija você?

Eu preciso entender essa coisa de ser leve,
de ser breve,
de carregar tempestade.

13.4.12

Se um dia eu partir de mim

Se um dia eu partir de mim,
façam-me o favor de não correr atrás da que se foi nem de consolar a que ficou

E quando eu for me indo assim,
de mim mesma para outra mesma de mim,
não lembrem mais quem mesmo eu fui

Porque eu... ah, eu!
a que vai e a que fica,
não se interessa por lembranças atrasadas,
por saudade de fim de tarde

Eu,
a que parte,
gosta de rumar pro agora

Eu,
a que fico,
sente falta do que não partiu.

O céu é uma gota de mar

que pingou,
se espalhou,
se perdeu,
deu a volta na Terra
e deparou consigo mesma.

3.4.12

Delonga

De manhã, eu boto a xícara na mesa e olho a cortina da sala de estar. Eu penso se levanto e abro a janela ou se fico e tardo o que o dia tem pra mim. Eu fico. O café com leite amorna. Eu bebo de pouquinho até ter certeza de que ele não queima de dúvidas como eu. Vai o primeiro gole e o dia já pode entrar. Levanto decidida a assumir a data do calendário que alguém, perdido, criou num dia de desespero e vontade de ver seu amor chegar numa estação de trem. O hoje entra pela janela e eu disfarço minha eterna obsessão por ontens.

À tarde eu fecho todos os vidros, portas e cortinas. Coloco meu grito para dormir e puxo um CD do Chico cantando com a Bethânia alguma coisa assim:  Não chore ainda não/ que eu tenho a impressão/ que o samba vem aí/ é um samba tão imenso que eu às vezes penso/ que o próprio tempo vai parar pra ouvir. Mas o tempo não para pro samba não, Bethânia. Como não parou pro Cazuza viver pra sempre. Como não vai parar pro Chico também. O tempo é o nosso lamento.

De noite, eu gosto de ligar pra ele. Eu gosto de ouvir a voz dele a perguntar o que eu quero com ele. Eu não sei. Eu quero ligar pra ele à noite olhando pro céu. Ele pergunta como eu tenho passado. Eu respondo "passando". Eu ando passando. As dores passando. O ontem passando. Mas o meu gostar de ouvir ele dizer qualquer coisa à noite não, não anda passando. Aliás ele não anda passando desde quando passou por mim. Nem eu sei se quero que ele passe. À noite eu costumo não saber.

"Tenho de dormir agora e você acorda cedo amanhã" é o jeito que ele tem de me soltar. Ele não entende que  eu nasci pro ontem, que eu cresci pro céu que ainda não anoiteceu do outro lado do planeta, pro lado do que ainda é o que foi. Ele não entende que eu atraso às horas, os dias, a vida. 

Ele não entende que adiando o nosso amor, eu atraso o nosso fim.